O Centro Paulo Freire |
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O Centro Paulo Freire foi fundado no ano de 2004, a partir de uma cooperação entre a Fundação Austríaca de Pesquisa para o Desenvolvimento Internacional (ÖFSE) e o Círculo de Mattersburg (Mattersburger Kreis) para políticas de desenvolvimento nas universidades austríacas. Desde 2009 o centro faz parte de KommEnt (Sociedade para Comunicação e Desenvolvimento). O Centro Paulo Freire dedica-se à pesquisa transdisciplinar de desenvolvimento e de educação dialógica, abrindo espaço à reflexão da prática política. Ele entende a prática, reunindo simultâneamente ação e reflexão, na pesquisa, educação e política como parte de um processo, cuja finalidade é a abolição da opressão.
A ideologia do Centro Paulo Freire consiste na intervenção a favor da propagação de conhecimento, transformando-o em propriedade pública. Se você imaginar, que todos os obstáculos que impedem o acesso ao conhecimento e à educação fossem removidos mesmo por um momento, (a realidade atual mostra-nos o contrário), conseqüentemente ficariam-nos ainda essas perguntas: Como deveria funcionar a transferência de conhecimento para que a finalidade de toda pesquisa de desenvolvimento – sendo essa a abolição da opressão - seja alcançada? Será que é suficiente apenas ajudar a um maior número possível de pessoas a entrarem em instituições educacionais (tradicionais)? O Centro Paulo Freire responde à essas perguntas com as próprias palavras de Paulo Freire: “Não, isso não é suficiente! O que vale é a maneira do ensino e a visão ideológica atrás da educação.”
Professor/a = "bancária/o"?
Paulo Freire falou de um sistema de educação estabelecido que reproduz a opressão. Ele chamou isso de “educação bancária”: As/Os professoras/es oniscientes são bancárias/os que enchem as/os alunas/os sem conhecimentos/ignorantes de "depósitos" (que é a educação). Quanto mais as/os professoras/es enchem os containers (que são as/os alunas/os) tanto mais eficaz é considerado o processo. As/Os alunas/os recebem os “depósitos”, arrumam-os e empilham-os. As/Os professoras/es controlam a visão do mundo das/dos alunas/os. A passividade desse processo de aprendizagem adapta as/os alunas/os ao sistema hegemonial. A criatividade das/os alunas/os é reduzida ou destruída e a credulidade estimulada. Todo esse sistema serve como válvula de segurança para aquelas pessoas que têm interesse que “o mundo nem seja reconhecido, nem transformado”:
"E porque os homens, nesta visão, ao receberem o mundo que neles entra, já são seres passivos, cabe à educação apassivá-los mais ainda e adaptá-los ao mundo. Quanto mais adaptados, para a concepção “bancária”, tanto mais “educados”, porque adequados ao mundo. Esta é uma concepção que, implicando uma prática, somente pode interessar aos opressores, que estarão tão mais em paz, quanto mais adequados estejam os homens ao mundo. S tão mais preocupados, quanto mais questionando o mundo estejam os homens." (1)
Ensinar e aprender: não é rua sem saída
Paulo Freire opôs-se a esse sistema educativo passivo que está reproduzindo mesmo a aprendizagem dialógica. As/Os alunas/os também são pesquisadoras/es críticas/os no diálogo com as/os professoras/es. Estes apresentam o material de aprendizagem aos (às) alunos(as) para que elas/eles o reflitam por si mesmas/os. As/Os professoras/es repensam as suas reflexões anteriores novamente enquanto as/os alunas/os formulam as suas reflexões. A distância entre alunas/os e professoras/es diminui-se e as/os alunas/os ficam encorajadas/os para construir uma visão crítica do mundo.
"Como também não lhe seria possível fazê-lo fora do diálogo. É através deste que se opera a superação de que resulta um termo novo: não mais educador do educando, não mais educando do educador, mas educador-educando com educando-educador. Desta maneira, o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa." (2)
Os objetivos do Centro Paulo Freire
O Centro Paulo Freire persegue três objetivos (pesquisa – educação – política):
• Educação como reflexão da prática: reflexão sobre o futuro da "cooperação ao desenvolvimento" e sua ligação com problemas concretos dela do dia-a-dia e sua “cultura de projetos”. Incluindo com as palavras de Paulo Freire "aprender a ler o mundo" numa alfabetização em sentido político e econômico;
• A politização da política austríaca de desenvolvimento: "Onde fica a política dentro da política de desenvolvimento?". Aspirar-se à reapropriação dos objetivos iniciais da "cooperação ao desenvolvimento" e da "política de desenvolvimento": uma política ética, planejada e de criação participativa, pensada a longo prazo;
• Organização do diálogo entre a prática e a ciência: promoção de novas formas do ensino e da aprendizagem no interesse da "cooperação ao desenvolvimento" e da "política de desenvolvimento";
(1) Paulo Freire: Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro 2005 [1970], p. 73.
(2) Freire 2005 [1970], p. 78f.